sábado, 31 de outubro de 2009


Das Utopias
Mario Quintana


Se as coisas são inatingíveis... ora!
não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
a mágica presença das estrelas!

Arte de Fumar
Mario Quintana

Desconfia dos que não fumam: esses não tem vida
interior, não tem sentimentos.
O cigarro é uma maneira disfarçada de suspirar...
O Milagre
Mario Quintana


Dias maravilhosos em que os jornais vêm cheios de poesia...
E do lábio do amigo brotam palavras de eterno encanto...
Dias mágicos... em que os burgueses espiam,
através das vidraças dos escritórios, a graça
gratuita das nuvens...

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O término da nossa relação
foi pra mim um choque térmico
não senti mais teu calor
nunca te vi tão frio.

Martha Medeiros

Desterro
Olavo Bilac

Já me não amas? Basta! Irei, triste, e exilado
Do meu primeiro amor para outro amor, sozinho...
Adeus, carne cheirosa! Adeus, primeiro ninho
Do meu delírio! Adeus, belo corpo adorado!

Em ti, como num vale, adormeci deitado,
No meu sonho de amor, em meio do caminho...
Beijo-te inda uma vez, num último carinho,
Como quem vai sair da pátria desterrado...

Adeus, corpo gentil, pátria do meu desejo!
Berço em que se emplumou o meu primeiro idílio,
Terra em que floresceu o meu primeiro beijo!

Adeus! Esse outro amor há de amargar-me tanto
Como o pão que se come entre estranhos, no exílio,
Amassado com fel e embebido de pranto...

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Voz da Noite
Helena Kolody


O sol se apaga.
De mansinho,
A sombra cresce.

A voz da noite
Diz baixinho:
Esquece... esquece...

Não tenho mais idade
pra brincar de esconde-esconde
vem me pegar

Martha Medeiros
Me recuso a dar informações
sobre o paradeiro das minhas idéias malditas
elas se escondem bem demais

só eu sei o caminho só eu sei
em quem dói mais


Martha Medeiros

Entusiasmo
Cecília Meireles

Por uns caminhos extravagantes,
irei ao encontro desses amores
-por que suspiro – distantes.

Rejeito os vossos, que são de flores.
Eu quero as vagas, quero os espinhos
e as tempestades, senhores.

Sou de ciganos e de adivinhos.
Não me conformo com os circunstantes
e a cor dos vossos caminhos.

Ide com os zoilos e os sicofantes.
Mas respeitai vossos adversários
que não querem ser triunfantes.

Vou com sonâmbulos e corsários,
poetas, astrólogos e a torrente
dos mendigos perdulários.

E cantamos fantasticamente,
pelos caminhos extravagantes,
para Deus, nosso parente.

Distância
Cecília Meireles

Quando o sol ia acabando
e as águas mal se moviam,
tudo que era meu chorava
da mesma melancolia.

Outras lágrimas nasceram
com o nascimento do dia:
só de noite esteve seco
meu rosto sem alegria.

(Talvez o sol que acabara
e as águas que se perdiam
transportassem minha sombra
para a sua companhia...)

Oh! mas nem no sol nem nas águas
os teus olhos a veriam...
— que andam longe, irmãos da lua,
muito clara e muito fria...


Canções do Mundo Acabado
Cecília Meireles


Meus olhos andam sem sono,

semente por te avistarem
de uma tão grande distância.

De altos mastros ainda rondo

uma lembrança nos ares.
O resto é sem importância.

Certamente não há nada
de ti, sobre este horizonte,

desde que ficaste ausente

Mas é isso que me mata

sentir que estás não sei onde,
mas sempre na minha frente.


ll

Não acredites em tudo

que disser a minha boca
sempre que te fale ou cante.

quando não parece, é muito,
quanto é muito, é muito pouco,
e depois nunca é bastante...

Foste com o mundo sem ternura

em cujas praias morreram
meus desejos em ser tua.

A água salgada me escuta

e mistura nas areias
meu pranto e o pranto da lua

Penso no que tu me dizias,

e como falavas,e como te rias...
Tua voz mora no mar.
A mim não fizeste rir
e nunca viste chorar

(Porque o tempo sempre foi
Longo para me esqueceres

e curto para te amar.)

terça-feira, 27 de outubro de 2009


Mentiras
Florbela Espanca

"Ai quem me dera uma feliz mentira,
Que fosse uma verdade para mim!"
J.Dantas

Tu julgas que eu não sei que tu me mentes
Quando o teu doce olhar poisa no meu?
Pois julgas que eu não sei o que tu sentes?
Qual a imagem que alberga o peito teu?

Ai, se o sei, meu amor! Eu bem distingo
O bom sonho da feroz realidade...
Não palpita d'amor, um coração
Que anda vogando em ondas de saudade!

Embora mintas bem, não te acredito;
Perpassa nos teus olhos desleais,
O gelo do teu peito de granito...

Mas finjo-me enganada, meu encanto,
Que um engano feliz vale bem mais
Que um desengano que nos custa tanto!