quarta-feira, 31 de março de 2010

Deixe-me livre
e me fará feliz.
Do contrario terás
Muito pouco de mim.

Ana Beatriz Nascimento
Gostosuras
Mario Quintana

Tua saudade tem gosto de amora.
O teu beijo tem gosto de pitanga.
Prende os teus cabelos num alfinete de ouro,
E prende cada trança vagabunda;
Pedi ao meu coração para fazer estes pobres versos;
Neles trabalhou, dia após dia,
Edificando de antigas batalhas
Uma dolente formusura.
Basta levantares a tua mão nacarada
E prenderes os teus cabelos longos e suspirares,
para que o coração dos homens arda e palpite;
E a espuma como uma vela sobre a areia opaca,
E as estrelas que trepam do céu de orvalho,
Só vivam para iluminar os teus pés que passam.

William Butler Yeats
Extra – Terrena
Mario Quintana
(Para Cecília Meirelles)

Nós colhíamos flores de hastes muito longas
E cujos nomes nem ao menos conhecíamos...
E nem sequer, também, sabíamos os nossos nomes...
E para quê, se um para o outro éramos Tu, apenas...
Ou quem sabe a Morte nos houvera bordado numa tapeçaria
A que o vento emprestasse a vida por um momento?
E por isso os nossos gestos eram ondulantes como
as plantas marinhas
E as nossas palavras como asas suspensas no vento...
Primeiro Poema de Abril
Mario Quintana
(para Evelyn Berg)

Vem vindo o abril tão belo em sua barca de ouro!
Um copo de cristal inventa as cores todas do arco-íris.
Eu procuro
As moedinhas de luz perdidas na grama dos teus olhos verdes.

E até onde, me diz,
até onde irá dar essa veiazinha aqui?
(Abril é bom para estudar Corpografia!)

terça-feira, 30 de março de 2010

Quando Fores Velha
William Butler Yeats
(Tradução de José Agostinho Baptista)

Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.

segunda-feira, 29 de março de 2010

A louca agitação das vésperas de partida!
Com a algazarra das crianças atrapalhando tudo
E a gente esquecendo o que devia trazer,
Trazendo coisas que deviam ficar...
Mas é que as coisas também querem partir,
As coisas também querem chegar
A qualquer parte! — desde que não seja
Esse eterno mesmo lugar...
E em vão o Pai procura assumir o comando:
Mas acabou-se a autoridade...
Só existe no mundo esta grande novidade:
VIAJAR!


Mario Quintana

domingo, 28 de março de 2010

Sou eu quem apaga o sol
e acende as estrelas...
pra ver você sonhar...

Luna

sexta-feira, 26 de março de 2010

De Um Lado Cantava o Sol
Cecília Meireles

De um lado cantava o sol,
do outro, suspirava a lua.
No meio, brilhava a tua
face de ouro, girassol!

Ó montanha da saudade
a que por acaso vim:
outrora, foste um jardim,
e és, agora, eternidade!
De longe, recordo a cor
da grande manhã perdida.
Morrem nos mares da vida
todos os rios do amor?

Ai! celebro-te em meu peito,
em meu coração de sal,
Ó flor sobrenatural,
grande girassol perfeito!

Acabou-se-me o jardim!
Só me resta, do passado,
este relógio dourado
que ainda esperava por mim. . .
Desejo de Regresso
Cecília Meireles

Deixai-me nascer de novo,
nunca mais em terra estranha,
mas no meio do meu povo,
com meu céu, minha montanha,
meu mar e minha família.

E que na minha memória
fique esta vida bem viva,
para contar minha história
de mendiga e de cativa
e meus suspiros de exílio.

Porque há doçura e beleza

na amargura atravessada,

e eu quero a memória acesa
depois da angustia apagada.
Com que afeição me remiro!

Marinheiro de regresso
com seu barco posto a fundo,
as vezes quase me esqueço
que foi verdade este mundo.
(Ou talvez fosse mentira...)

quarta-feira, 24 de março de 2010

Serenata
Cecília Meireles

Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.

Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.

Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.
Embriaguez do Céu
Luiz Delfino

Mas isto assim?... Para que fazes? – Chegas
Simples... tão boa!... O teu chapéu de palha
Tiras, tiras a luva... e o que se espalha
É o som gentil de umas palavras meigas,

E um outro céu, mais luz, mais sol, mais veigas...
Sândalos, sim!... (e a mata que farfalha,
Calmo, da calma das estátuas gregas,

Potestades! meu voto está lançado:
Beber o céu num cíato dourado
Cheio de estrelas, vou sabei-o pois.

Ai! todo o firmamento azul num beijo...
Deuses, silêncio: sóis, eu não desejo
Que alguém veja o que houver entre nós dois.

terça-feira, 23 de março de 2010

Jesus ao Colo de Madalena
(A Guilherme Bellegarde)

Luiz Delfino

Jesus expira, o humilde e grande obreiro!...
Sobem já, pela cruz acima, escadas;
E nos cravos varados do madeiro
Batem os malhos, cruzam-se as pancadas.

Ouve-se o choro em torno. — As mãos primeiro,
Inertes, caem no ar dependuradas;
A fronte oscila; arqueia o tronco inteiro
Nos braços das mulheres desgrenhadas.

Soltam-se os pés. — Aumenta o pranto e a queixa.
Só Madalena ao oiro da madeixa
Limpa-lhe a face, que de manso inclina.

E no meio da lágrima mais linda,
Com o dedo erguendo a pálpebra divina,
Busca ver se Ele a vê... beijando-o ainda!...

segunda-feira, 22 de março de 2010

De Que São Feitos os Dias?
Cecília Meireles

De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
Vagarosas saudades,
Silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
Momentâneos lampejos:
Vagas felicidades,
Inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
De pecados, de gloria,
-do medo que encadeia
Todas essas mudanças.

Dele, deles vivemos,
Dentro deles choramos,
Em duros desenlaces
E em sinistras alianças...

quinta-feira, 18 de março de 2010

Os Arroios
Mario Quintana

Os arroios são rios guris...
Vão pulando e cantando dentre as pedras.
Fazem borbulhas d’água no caminho: bonito!
Dão vau aos burricos,
às belas morenas,
curiosos das pernas das belas morenas.
E às vezes vão tão devagar
que se debruçam sobre eles nos matos que atravessam
e onde parece quererem sestear.
Às vezes uma asa branca roça-os, súbita emoção
como a nossa se recebêssemos o miraculoso encontrão
de um Anjo...
Mas nem nós nem os rios sabemos nada disso:
Os rios tresandam óleo e alcatrão
e refletem, em vez de estrelas,
os letreiros das firmas que transportam utilidades.
Que pena me dão os arroios,
os inocentes arroios...

quarta-feira, 17 de março de 2010

Marcha
Cecília Meireles

As ordens da madrugada
romperam por sobre os montes:
nosso caminho se alarga
sem campos verdes nem fontes.
Apenas o sol redondo
e alguma esmola de vento
quebram as formas do sono
com a idéia do movimento.

Vamos a passo e de longe;
entre nós dois anda o mundo,
com alguns mortos pelo fundo.
As aves trazem mentiras
de países sem sofrimento.
Por mais que alargue as pupilas,
mais minha dúvida aumento.

Também não pretendo nada
senão ir andando à toa,
como um número que se arma
e em seguida se esboroa,
- e cair no mesmo poço
de inércia e de esquecimento,
onde o fim do tempo soma
pedras, águas, pensamento.

Gosto da minha palavra
pelo sabor que lhe deste:
mesmo quando é linda, amarga
como qualquer fruto agreste.
Mesmo assim amarga, é tudo
que tenho, entre o sol e o vento:
meu vestido, minha música,
meu sonho e meu alimento.

Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudade;
tenho visto muita coisa,
menos a felicidade.
Soltam-se os meus dedos ristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino
já me dá contentamento.

Como tudo sempre acaba,
oxalá seja bem cedo!
A esperança que falava
tem lábios brancos de medo.
O horizonte corta a vida
isento de tudo, isento…
Não há lágrima nem grito:
apenas consentimento.
De Cara Lavada
Martha Medeiros

hoje me desfiz dos meus bens
vendi o sofá cujo tecido desenhei
e a mesa de jantar onde fizemos planos

o quadro que fica atrás do bar
rifei junto com algumas quinquilharias
da época em que nos juntamos

a tevê e o aparelho de som
foram adquiridos pela vizinha
testemunha do quanto erramos

a cama doei para um asilo
sem olhar pra trás e lembrar
do que ali inventamos

aquele cinzeiro de cobre
foi de brinde com os cristais
e as plantas que não regamos

coube tudo num caminhão de mudança
até a dor que não soubemos curar
mas que um dia vamos

terça-feira, 16 de março de 2010

Por Amor
Torquato da Luz

Só ficará de ti o que fizeste
por amor.
O resto não valeu:
foi apenas poeira que se ergueu
em teu redor
e o vento varreu.

Só ficará de ti o que escreveste
com paixão.
O resto não contou:
foi tão-só uma sombra que passou,
pura ilusão,
e nem rasto deixou.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Num Turbilhão de Estátuas
Luiz Delfino

At the mid hour of night, when stars are weeping...
T. Moore - Irish melodies

Quando os formosos mármores de Atenas,
Brancos, como os luares transparentes
Desmanchando seu feixe de açucenas
Na limpidez sonora das correntes,

Murmuram suas doces cantilenas
Pelas suaves curvas esplendentes,
Mas como um sonho, um vago sonho apenas,
Que embala a noite em páramos silentes...

Numa ebriez de luz, turbado e incerto,
Entre o alarido de rosais; desperto,
Via erguer-se, surgir... ficar só tu.

Do turbilhão de estátuas fugidias
Restavam só as formas luzidias
Do teu corpo orgulhosamente nu.

Receita Para Dias de Chuva
Roseana Murray

Dia de chuva é para viajar
na neblina e no vento
para dentro para dentro

Um livro fechado espera
que se abram suas portas
com as chaves do pensamento

Lira Romantiquinha
Carlos Drummond de Andrade

Por que me trancas
o rosto e o riso
e assim me arrancas
do paraíso?

Por que não queres,
deixando o alarme
(ai, Deus: mulheres!)
acarinhar-me?

Por que cultivas
as sem-perfumes
e agressivas
flores do ciúme?

Acaso ignoras
que te amo tanto,
todas as horas,
já nem sei quanto?

Visto que em suma
é todo teu,
de mais nenhuma,
o peito meu?

Anjo sem fé
nas minhas juras,
porque é que é
que me angusturas?

Minh’alma chove
Frio, tristinho.
Não te comoves
este versinho?

sábado, 13 de março de 2010

Por Aí...
Luna

Andar descalça na areia
pisando estrelas do mar
colher flores na campina
de onde vejo a lua cheia
navegando pelo ar...

Recompor as minhas asas
como gaivota perdida
num ninho de andorinha
que em plena brisa marinha
perdeu o dom de voar...

Andar descalça na areia
na tarde branda e serena
catando conchas do mar...

quinta-feira, 11 de março de 2010

Quadrilha
Carlos Drummond de Andrade

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava
Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos,
Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre,
Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
Dias Fantasmas
J G de Araujo Jorge

Não são sólidos, não são líquidos,
são uma estranha massa pastosa estes dias
sem a tua presença,
dias fantasmas que se deforma e escorrem
como aqueles objetos criados pela imaginação doentia
de Salvador Dali.

Dias de massa pastosa, que nas minhas mãos de angústia
parecem maiores, parecem sem fim,
e se distendem fora do tempo numa infinita espera.

Com suas horas fabrico imagens que se enfunam e acenam
- brancas cortinas de sombra
tocadas pelo vento...

Dias vazios. . . Em seus corredores de ermo e silêncio
nossos momentos de amor surgem a ressurgem
como fluidas visões mediúnicas
na inconsistência de sua matéria
tecida só de lembranças...
Ele era gago, vesgo e mancava de uma perna
e daí? era gostoso, inteligente e tinha uma
boca linda
Sabia dizer coisas belas em horas estranhas
e chorava quando se sentia completamente
feliz

Martha Medeiros

quarta-feira, 10 de março de 2010

O Mar
Torquato da Luz

Ninguém está só se tem o mar por perto,
como aprendi no areal deserto
quando aí busquei em vão
silêncio e solidão.

Agora ao mar me confesso
sempre que tudo em redor
convida a desistir.

E nele recomeço
liberto de qualquer dor
a aventura de existir.

terça-feira, 9 de março de 2010

Onde está meu Coração
Luna

Meu coração nasceu aqui,
junto ao mar,
ao pé do rochedo incrustado de mariscos.
Meu berço foi essa areia imensa
onde eu adormecia ouvindo o canto das sereias,
e o apito dos navios ao longe.
Aqui cresceu meu coração, sem guitarras e pardais,
só o doce marulhar das ondas,
e o alvoroço das gaivotas sobrevoando
a espuma branca que bordava a areia.
quando eu morrer, não me levem a outro lugar;
que meu coração repouse no fundo do mar.
Imprevisível
Luna

Quero ser
fogo que queima...
chama que arde
e alguém.
que ninguém sabe
onde encontrar,
as 3 da tarde...
A Bolsa de Juliana
Luna

Juliana tem uma bolsa de prata
sem fundo
cabe tudo na bolsa de Juliana
caracóis, cogumelos, violetas,
raios de luar
asas de borboleta
e plumas de passarinho
que ela encontra pelo caminho
Na bolsa de prata de Juliana
há dois corações de anjo
e três suspiros de fada.

domingo, 7 de março de 2010

Desdém
Florbela Espanca

Andas dum lado pro outro
Pela rua passeando;
Finges que não queres ver
Mas sempre me vais olhando.

É um olhar fugidio,
Olhar que dura um instante,
Mas deixa um rasto de estrelas
O doce olhar saltitante...

É esse rasto bendito
Que atraiçoa o teu olhar,
Pois é tão leve e fugaz
Que eu nem o sinto passar!

Quem tem uns olhos assim
E quer fingir o desdém,
Não pode nem um instante
Olhar os olhos d'alguém...
Abandono
Torquato da Luz

Não digas nada, deixa apenas
as mãos entregues ao calor das minhas
e olha-me nos olhos como quando
nos fitávamos, pássaros surpresos
do próprio voo, adolescente e luminoso.
Ambos sabemos desde há muito: a vida
é uma longa paciência e não há forma
de viver ao abandono dos que amamos.
Sobrevivamos, pois, no fio dos dias
que nos restam ainda, se é que o tempo
nos favorece como dantes.
E mantenhamos as mãos coladas,
olhares fitos um no outro, meu amor.
Receita de Arrumar Gavetas
Roseana Murray

Separe coisa por coisa:
de um lado o pólen do passado
as raízes do que foi importante
os retratos os bilhetes

os horários de chegada
de todos os navios-pirata
os sinos que anunciam
que há um amigo na estrada

do outro lado um espaço vazio
para o que vai acontecer
as surpresas do destino
os desatinos do acaso

sábado, 6 de março de 2010

Metal Rosicler 9
Cecília Meireles

Falou-me o afiador de pianos, esse
que mansamente escuta cada nota
e olha para os bemóis e sustenidos
ouvindo e vendo coisa mais remota.
E estão livres de engano os seus ouvidos
e suas mãos que em cada acorde acordam
os sons felizes de viverem juntos.

“Meu interesse é de desinteresse:
pois música e instrumento não confundo,
que afinador apenas sou, do piano,
a letra da linguagem desse mundo
que me eleva a conviva sobre-humano.
Oh! que Física nova nesse plano
Para outro ouvido, sobre outros assuntos...”

Despedida – Por Mim, Por Voz
Cecília Meireles

Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo:
quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? - me perguntarão.
- Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras? Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra...)

Quero solidão.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Sonho com Plantas e Gestos Amáveis
Cecília Meireles

Em sonho vireis delicadamente
e sem motivo algum
direis palavras amáveis
que vos surpreenderiam
se vos fossem contadas.

Em sonho mandareis colocar no meu terraço
plantas cheias de flores
que todos admirariam,
pois jamais foram vistas
da China à Patagônia
e existem apenas neste sonho.

Jamais saberei o que sonháveis
enquanto eu sonhava com as vossas gentilezas.
Jamais sabereis que tais gentilezas foram sonhadas.

Sem motivo algum,
ficam floridos noutro mundo os meus terraços.
E somente eu poderei pensar nisso.
Somente eu vi tudo isso.
E é como um achado arqueológico,
momentâneo e perene
entre o ar e o pó.

A Bicicleta
JG de Araújo Jorge

Me lembro, me lembro
foi depois do jantar, meu avô me chamou,
tinha um riso na cara, um riso de festa:

"- Guilherme, vou tapar seus olhos,
venha cá."

Os tios, os primos, os irmãos, na grande mesa redonda
ficaram rindo baixinho, estou ouvindo, estou ouvindo:

"- Abre os olhos, Guilherme!"

Estava na sala de jantar, junto da porta do corredor,
como uma santa irradiando, num altar,
como uma coroa na cabeça de um rei,
a bicicleta novinha, com lanterna, campainha, lustroso selim de couro,
tudo.

Me lembrei hoje da minha bicicleta
quando chegou a minha geladeira.

Mas faltou qualquer coisa à minha alegria,
talvez a mesa redonda, os tios, os primos rindo baixinho,

" – abre os olhos, Guilherme!"

Oh! Faltou qualquer coisa à minha alegria!

quinta-feira, 4 de março de 2010

Nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez

Paulo Leminski

Delírio
Olavo Bilac

Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
– Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!

Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
– Mais abaixo, meu bem! – num frenesi.

No seu ventre pousei a minha boca,
– Mais abaixo, meu bem! – disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci...