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quarta-feira, 24 de março de 2010

Embriaguez do Céu
Luiz Delfino

Mas isto assim?... Para que fazes? – Chegas
Simples... tão boa!... O teu chapéu de palha
Tiras, tiras a luva... e o que se espalha
É o som gentil de umas palavras meigas,

E um outro céu, mais luz, mais sol, mais veigas...
Sândalos, sim!... (e a mata que farfalha,
Calmo, da calma das estátuas gregas,

Potestades! meu voto está lançado:
Beber o céu num cíato dourado
Cheio de estrelas, vou sabei-o pois.

Ai! todo o firmamento azul num beijo...
Deuses, silêncio: sóis, eu não desejo
Que alguém veja o que houver entre nós dois.

terça-feira, 23 de março de 2010

Jesus ao Colo de Madalena
(A Guilherme Bellegarde)

Luiz Delfino

Jesus expira, o humilde e grande obreiro!...
Sobem já, pela cruz acima, escadas;
E nos cravos varados do madeiro
Batem os malhos, cruzam-se as pancadas.

Ouve-se o choro em torno. — As mãos primeiro,
Inertes, caem no ar dependuradas;
A fronte oscila; arqueia o tronco inteiro
Nos braços das mulheres desgrenhadas.

Soltam-se os pés. — Aumenta o pranto e a queixa.
Só Madalena ao oiro da madeixa
Limpa-lhe a face, que de manso inclina.

E no meio da lágrima mais linda,
Com o dedo erguendo a pálpebra divina,
Busca ver se Ele a vê... beijando-o ainda!...

segunda-feira, 15 de março de 2010

Num Turbilhão de Estátuas
Luiz Delfino

At the mid hour of night, when stars are weeping...
T. Moore - Irish melodies

Quando os formosos mármores de Atenas,
Brancos, como os luares transparentes
Desmanchando seu feixe de açucenas
Na limpidez sonora das correntes,

Murmuram suas doces cantilenas
Pelas suaves curvas esplendentes,
Mas como um sonho, um vago sonho apenas,
Que embala a noite em páramos silentes...

Numa ebriez de luz, turbado e incerto,
Entre o alarido de rosais; desperto,
Via erguer-se, surgir... ficar só tu.

Do turbilhão de estátuas fugidias
Restavam só as formas luzidias
Do teu corpo orgulhosamente nu.