quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Levam o Amanhecer
Helena Kolody

Partem.
E levam consigo
A memória
De nosso amanhecer.

A quem dirigir

A pergunta mágica:
Lembra-se?

Quem
Entre os jovens,
Acreditará
Que somos jovens também?

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Quando bebo além da conta
minha língua fica esperta e meus olhos
brilham mais
quem me dera todo dia essa alegria de taberna

Martha Medeiros



Quando Ela Passa
Fernando Pessoa

Quando eu me sento à janela
P’los vidros que a neve embaça
Vejo a doce imagem dela
Quando passa...passa...passa...

Lançou-me a mágoa sem véu: –
Menos um ser neste mundo
E mais um anjo no céu.

Quando eu me sento à janela,
P’los vidros que a neve embaça
Julgo ver a imagem dela
Que já não passa...não passa...
Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já

É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.

És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.


Fernando Pessoa
Eu Não Existo Sem Você
Vinicius de Moraes

Eu sei e você sabe
Já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe
Que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham a você.

Assim como o Oceano, só é belo com o luar
Assim como a Canção, só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem, só acontece se chover
Assim como o poeta, só é bem grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor, não é viver
Não há você sem mim
E eu não existo sem você!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Me visto de vermelho
a raiva tem essa cor

uma lança na mão
uma mancha no lençol

São Jorge
um dragão
um sonho solto

estou pronta para enfrentar
meu inferno zodiacal

Martha Medeiros











Confissão
Florbela Espanca

Aborreço-te muito. Em ti há qualquer cousa
De frio e de gelado, de pérfido e cruel,
Como um orvalho frio no tampo duma lousa,
Como em doirada taça algum amargo fel.

Odeio-te também. O teu olhar ideal
O teu perfil suave, a tua boca linda,
São belas expressões de todo o humano mal
Que inunda o mar e o céu e toda a terra infinda.

Desprezo-te também. Quando te ris e falas,
Eu fico-me a pensar no mal que tu calas
Dizendo que me queres em íntimo fervor!

Odeio-te e desprezo-te. Aqui toda a minh'alma
Confessa-to a rir, muito serena e calma!
Ah, como eu te adoro, como eu te quero, amor!...
A Esta Hora
Florbela Espanca

A esta hora branda d'amargura,
A esta hora triste em que o luar
Anda chorando, Ó minha desventura
Onde estás tu? Onde anda o teu olhar?

A noite é calma e triste... a murmurar
Anda o vento, de leve, na doçura
Ideal do aveludado ar
Onde estrelas palpitam... Noite escura

Dize-me onde ele está o meu amor,
Onde o vosso luar o vai beijar,
Onde as vossas estrelas co fulgor

Do seu brilho de fogo o vão cobrir!
Dize-me onde ele está!... Talvez a olhar
A mesma noite linda a refulgir...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Foi então que ela viu no calendário
um sofrimento diário
uma dor que tinha número
e uma aflição já havia um mês

foi então que resolveu queimá-lo
e trocá-lo por uma ampulheta
que baixa a dor mais rápido
e mata O amor de vez

Martha Medeiros

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Neste Mar Prodigioso
Emily Dickinson
Tradução: Idelma Ribeiro de Faria

Neste mar prodigioso,
Velejando silencioso,
Ho! Timoneiro, ho!
Conhecereis a praia
Onde a vaga se espraia
E a tempestade cessou?

Ao ocidente – remanso
De velas em descanso,
Âncoras na imobilidade -
Vou para lá vos guiar.
Terra à vista! Eternidade!
Enfim, desembarcar!

Assim Eu Vejo a Vida
Cora Coralina

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.
Ausente, pensativo, solitário,
como se vos tivera ali presente
dou e tomo as razões ousadamente
firme em amor, em pensamento vário.

Quando venho ante vós com temerário
fervor renovo n’alma juntamente
quantos cuidados tive estando ausente,
que tudo em tal aperto é necessário.

Uns aos outros se impedem na saída
e querem cometer e não se abalam,
e vou para falar e fico mudo.

Porém meus olhos, minha cor perdida,
meu pasmo, meu silêncio, por mim falam,
e não dizendo nada, digo tudo.

Estevão Rodrigues de Castro