quarta-feira, 21 de março de 2012

Passarinho
Bruno de Paula
Resolvi desabotoar meus sentimentos ...
Sentir o vento,
correr solto aqui dentro.

Deixar a vida me levar.
Ser mais asas que raízes.
Ser passarinho.
A Estrada Branca
José Tolentino Mendonça

Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto

folhas tremiam
ao invisível peso mais forte

Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate.

terça-feira, 6 de março de 2012

Comprei uma passagem para as nuvens
com direito a duas asas prateadas
e um vestido dourado de cetim
meu voo é amanhã ao por do sol
minha bagagem são mudas do jardim.

Luna
“Os dias passavam, passavam e passavam,
alcançavam as semanas,
dobravam as quinzenas,
atingiam os meses,
amontoavam-se em décadas – e nada acontecia.
Eu tinha a impressão de viver dentro duma enorme
e vazia bola de gás...”.

  Caio Fernando Abreu
Espelho Cego
Cecília Meireles

Onde, a face de prata e cristal puro,
e aquela deslumbrante exatidão
que revela o mais breve aceno obscuro

e o compasso das lágrimas, e a seta
que de repente galga os céus do olhar
e em margens sobre-humanas se projeta?

Onde, as auroras? Onde, os labirintos,
- e o frêmito que rasga o peso ao mar,
- e os gritos, de áureos lustres e aéreos plintos?

Ah! que fazes do rosto que te entrego?
- Musgos imóveis sobre a sua luz...
Limos... Lúpulus... opaco espelho cego!

segunda-feira, 5 de março de 2012

Riachinho
Roseana Murray
As águas claras
me contam segredos
de sol, de céu, de ar
e cantam acalantos
de ninar
enquanto correm ligeiras
da montanha para o mar.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Beijo Explosivo
Helô Strega

Eu não sei ao certo o que acontecia.
Mas quando ele me beijava,
o céu da minha boca explodia,
e eu sentia mais arrepios que as lembranças
que tenho, dos céus explosivos nas noites de Réveillon.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012



A Última Fala do Palhaço
Saúl Dias
Deixem-me ser eu
um instante, ao menos...!
Ainda vale a pena!
Deixem-me vir à cena
em primeiro lugar,
a rir ou a chorar
(a mesma coisa afinal...)

Deixem-me, antes que morra,
demolir a masmorra
que eu mesmo construí
com lágrimas e sangue
e, embora exangue,
ser só eu, tal e qual!
Hora da Saudade
Roseana Murray
A tarde se esvai
lentamente
esgarçando suas luzes
em infinitos cristais
a tarde se esvai
e na alma fica um silêncio
de sinos mudos
uma espera ansiosa
de estrelas
uma saudade fininha
de não se sabe o quê.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Volta até mim no silêncio da noite
a tua voz que eu amo, e as tuas palavras
que eu não esqueço. Volta até mim
para que a tua ausência não embacie
o vidro da memória, nem o transforme
no espelho baço dos meus olhos. Volta
com os teus lábios cujo beijo sonhei num estuário
vestido com a mortalha da névoa; e traz
contigo a maré da manhã com que
todos os náufragos sonharam.

Nuno Júdice

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

“Já nada mais restava.
Apenas a noite e, dentro dela,
o meu silêncio de incompreensão.
Meus passos afundavam na areia
deixando uma esteira de poças
que conteriam as estrelas,
não fosse o imenso escuro de tudo.
Cada vez mais lento eu caminhava.”
 
Caio Fernando Abreu

O Anel de Vidro
Manuel Bandeira

Aquele pequenino anel que tu me deste,
– Ai de mim – era vidro e logo se quebrou…
Assim também o eterno amor que prometeste,
- Eterno! era bem pouco e cedo se acabou.

Frágil penhor que foi do amor que me tiveste,
Símbolo da afeição que o tempo aniquilou,
Aquele pequenino anel que tu me deste,
– Ai de mim – era vidro e logo se quebrou…

Não me turbou, porém, o despeito que investe
Gritando maldições contra aquilo que amou.
De ti conservo no peito a saudade celeste…
Como também guardei o pó que me ficou
Daquele pequenino anel que tu me deste…