cai chuva do céu cinzento Que não tem razão de ser. Até o meu pensamento Tem chuva nele a escorrer.
Tenho uma grande tristeza Acrescentada à que sinto. Quero dizer-ma mas pesa O quanto comigo minto.
Porque verdadeiramente Não sei se estou triste ou não, E a chuva cai levemente (Porque Verlaine consente) Dentro do meu coração.
Fernando Pessoa
segunda-feira, 18 de julho de 2011
O seu ser era tão envolvente
que por onde passava
deixava um pouco de si
e depois de sua passagem, tudo se tornava diferente...
Alguma coisa, do seu modo de ser deixava na passagem,
que alterava o ser dos que estavam em seu caminho.
Todos ficavam mais sensíveis
no modo de SER e ESTAR no mundo.
Helô Strega
Quando pequena eu conversa com os animais.
A gente falava sobre a vida,
trocava ideias sobre tanta coisa...
É... a gente pensava o mundo com magia:
onde humanos e animais
podiam mesmo em línguas diferentes: conversar.
Desde que a escola me furtou um tempo de infância
ensinando-me linguagem sem efetiva comunicação,
eu perdi a fluência no mágico idioma-animalis,
agora mal sei falar com meu gato.
E se não fosse ele, eu estaria muda,
seria considera uma analfabeta por completo.
Helô Strega
Liberdade
Sophia de Mello Breyner Andresen
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.
Procurei me esconder do drama
mas ele atravessou
as paredes da minha casa
e me encontrou parado,
diante do espelho,
com um certo constrangimento,
como se envelhecer fosse pecado...
Bruna Lombardi
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Tanto tempo de prisão
que agora meus olhos,
não conseguem enxergar sozinhos
ou em uma só vez,
o tamanho da Liberdade.
Por isto, todos os dias amanheço
pronta
pra ver um lado da vida que ainda não vi.
Helô Strega
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Lisbon Revisited Álvaro de Campos
Não: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna! Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!
Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo…
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
sexta-feira, 17 de junho de 2011
Lençóis nos varais esvoaçantes pingando num dia sem sol Luna
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Estrela Cadente Roseana Murray
Quando eu estiver
com o olhar distante,
maninha,
com um jeito esquisito
de quem não está presente,
não se assuste,
ó maninha,
fui logo ali,
no quintal do céu,
colher uma estrela cadente.
Música
Mario Quintana
O que mais me comove em música
São essas notas soltas
– pobres notas únicas –
Que do teclado arranca o afiador de pianos.
quinta-feira, 9 de junho de 2011
Manhã de Chuva na Infância
Cecília Meireles
Ao longo do muro, as campânulas escorrem,
gelatinosas,
ainda coradas,
ainda cheirosas,
e já mortas.
Eu sou a menina que vai para a escola
com seu casaquinho vermelho,
e os seus livros forrados de papel azul.
A chuva continua a bater nas flores,
a avivar as cores dos muros,
a gorgolejar nas calhas,
a correr para os negros bueiros.
Eu sou a menina que vai para a escola
feliz, com os cabelos molhados
e o rosto frio.
A chuva é uma alegria, com suas agulhas de vidro
voando por todos os lados.
A chuva cheira a jasmim e a flor "boa-noite!"
Eu sou a menina que de repente fica triste,
porque ao longo do muro as campânulas escorrem,
gelatinosas,
cor de coral, cor de marfim,
perfumadas ainda,
e já mortas.