segunda-feira, 22 de junho de 2009


Duas Almas
Alceu Wamosy

Ó tu que vens de longe, ó tu que vens cansada,
entra, e sob este teto encontrarás carinho:
eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho.
vives sozinha sempre, e nunca foste amada...

A neve anda a branquear lividamente a estrada,
e a minha alcova tem a tepidez de um ninho.
Entra, ao menos até que as curvas do caminho
se banhem no esplendor nascente da alvorada.

E amanhã quando a luz do sol dourar radiosa
essa estrada sem fim, deserta, horrenda e nua,
podes partir de novo, ó nômade formosa!

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha:
Há de ficar comigo uma saudade tua...
Hás de levar contigo uma saudade minha...

quinta-feira, 18 de junho de 2009


Menina dos Olhos Verdes
JG de Araújo Jorge


Ó! menina dos olhos verdes, que à tardinha
estas sempre à janela à hora de minha volta...
Que cousas pensarás? Que fazes aí sozinha?
Por que regiões de sonho a tua alma se solta?

Sempre que dobro a esquina encontro o teu olhar
e o teu claro sorriso adolescente ainda...
Habituei-me a te ver - e és tão criança e tão linda
que sem querer, também sorrio ao te encontrar...

Menina dos olhos verdes... A quem esperas
com teus olhos gritando a cor das primaveras?
Queres versos? Pois bem, estes são teus, recolhe-os!

Escrevi-os pensando em ti, - tímida e bela.
- a menina dos olhos verdes da janela
debruçada à janela verde dos meus olhos!

Pêndula
Helena Kolody


Vão demolir o casarão da esquina:
a casa antiga, ornada de volutas,
folhas de acanto na fachada, em frisos,
a sacada – uma renda em ferro azul,
e a cascata de mármore da escada.

Móveis de estilo nos salões, galas de outrora,
grandes espelhos, porcelanas, alabastros.
Pêndula preguiçosa e demorar o tempo.
Gotas de luz do carrilhão cantando as horas.


No casarão vazio, acordam os fantasmas
dos que viveram no aconchego da lareira,
dos que dançaram sob a luz dos candelabros
e usaram linhos e baixelas e cristais
e finos gestos de olvidada cortesia.

Espera
Sophia de Mello Breyner

Dei-te a solidão do dia inteiro.
Na praia deserta, brincando com a areia,
No silêncio que apenas quebrava a maré cheia
A gritar o seu eterno insulto,
Longamente esperei que o teu vulto
Rompesse o nevoeiro.

Só tu
Paulo Setúbal

Dos lábios que me beijaram,
Dos braços que me abraçaram
Já não me lembro, nem sei...
São tantas as que me amaram!
São tantas as que eu amei!
Mas tu - que rude contraste!
Tu, que jamais me beijaste,
Tu, que jamais abracei,
Só tu, nesta alma, ficaste,
De todas as que eu amei.

Cantiga de Praia
Alphonsus de Guimaraens Filho

Estou sozinho na praia,
estou sozinho e não sei.
Que luz adormece a face
se em gritos já me afoguei?

Estou dançando na praia?
Estou dançando? Não sei.
Eu colho com as mãos da ausência
a rosa que não beijei.

Que luz chega do outro lado,
do outro rio, do outro mar?
Estou sozinho na praia...
Ó mundo, vamos dançar!

O Vestido de Laura
Cecília Meireles


O vestido de Laura
É de três babados,
Todos bordados.


O primeiro, todinho,
Todinho de flores
De muitas cores.


No segundo, apenas
Borboletas voando,
Num fino bando.


O terceiro, estrelas
Estrelas de renda
- talvez de lenda...


O vestido de Laura
Vamos ver agora,
Sem mais demora!


Que as estrelas passam,
Borboletas, flores
Perdem suas cores.


Se não formos depressa,
Acabou-se o vestido
Todo bordado e florido!

Fanatismo
Florbela Espanca

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida

Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, vivo de rastros: "
Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."

Ismália
Alphonsus de Guimaraens

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

Florista
Cecília Meireles

Deixai passar pela margem da tarde
a velha florista
que levanta nos braços o fim das flores:
- imenso chapéu de ramos amontoados.

Vede os tristes cravos desfeitos,
e o lábio oscilante da última pétala de rosa.
Os lírios quase líquidos,
moles e túmidos,
prolongam densas lágrimas.

Deixai passar com o fim das flores,
com o fim da vida,
a velha florista,
de saia verde, de xaile roxo, de meias grossas,
toda coberta de flores murchas,
de espesso pólen, de mortos espinhos,
- canteiro deslizante,
a velha florista,
a escorregar para o ocaso,
lenta e sozinha,
sob os álamos amarelos,
ao longo de muros tão antigos,
como depois de uma grande festa,
de um culto de outrora.

Tão longa a jornada!
E a gente cai, de repente
No abismo do nada.

Helena Kolody

O Tempo no Jardim
Cecília Meireles

Nestes jardins – há vinte anos – andaram os nossos muitos passos,
e aquele que então éramos se contemplaram nestes lagos.

Se algum de nós avistasse o que seríamos com o tempo,
todos nós choraríamos, de mútua pena e susto imenso.

E assim nos separamos, suspirando dias futuros,
e nenhum se atrevia a desvelar seus próprios mundos.

E agora que separados vivemos o que foi vivido,
com doce amor choramos quem fomos nesse tempo antigo.