terça-feira, 6 de março de 2012

“Os dias passavam, passavam e passavam,
alcançavam as semanas,
dobravam as quinzenas,
atingiam os meses,
amontoavam-se em décadas – e nada acontecia.
Eu tinha a impressão de viver dentro duma enorme
e vazia bola de gás...”.

  Caio Fernando Abreu
Espelho Cego
Cecília Meireles

Onde, a face de prata e cristal puro,
e aquela deslumbrante exatidão
que revela o mais breve aceno obscuro

e o compasso das lágrimas, e a seta
que de repente galga os céus do olhar
e em margens sobre-humanas se projeta?

Onde, as auroras? Onde, os labirintos,
- e o frêmito que rasga o peso ao mar,
- e os gritos, de áureos lustres e aéreos plintos?

Ah! que fazes do rosto que te entrego?
- Musgos imóveis sobre a sua luz...
Limos... Lúpulus... opaco espelho cego!

segunda-feira, 5 de março de 2012

Riachinho
Roseana Murray
As águas claras
me contam segredos
de sol, de céu, de ar
e cantam acalantos
de ninar
enquanto correm ligeiras
da montanha para o mar.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Beijo Explosivo
Helô Strega

Eu não sei ao certo o que acontecia.
Mas quando ele me beijava,
o céu da minha boca explodia,
e eu sentia mais arrepios que as lembranças
que tenho, dos céus explosivos nas noites de Réveillon.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012



A Última Fala do Palhaço
Saúl Dias
Deixem-me ser eu
um instante, ao menos...!
Ainda vale a pena!
Deixem-me vir à cena
em primeiro lugar,
a rir ou a chorar
(a mesma coisa afinal...)

Deixem-me, antes que morra,
demolir a masmorra
que eu mesmo construí
com lágrimas e sangue
e, embora exangue,
ser só eu, tal e qual!
Hora da Saudade
Roseana Murray
A tarde se esvai
lentamente
esgarçando suas luzes
em infinitos cristais
a tarde se esvai
e na alma fica um silêncio
de sinos mudos
uma espera ansiosa
de estrelas
uma saudade fininha
de não se sabe o quê.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Volta até mim no silêncio da noite
a tua voz que eu amo, e as tuas palavras
que eu não esqueço. Volta até mim
para que a tua ausência não embacie
o vidro da memória, nem o transforme
no espelho baço dos meus olhos. Volta
com os teus lábios cujo beijo sonhei num estuário
vestido com a mortalha da névoa; e traz
contigo a maré da manhã com que
todos os náufragos sonharam.

Nuno Júdice

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

“Já nada mais restava.
Apenas a noite e, dentro dela,
o meu silêncio de incompreensão.
Meus passos afundavam na areia
deixando uma esteira de poças
que conteriam as estrelas,
não fosse o imenso escuro de tudo.
Cada vez mais lento eu caminhava.”
 
Caio Fernando Abreu

O Anel de Vidro
Manuel Bandeira

Aquele pequenino anel que tu me deste,
– Ai de mim – era vidro e logo se quebrou…
Assim também o eterno amor que prometeste,
- Eterno! era bem pouco e cedo se acabou.

Frágil penhor que foi do amor que me tiveste,
Símbolo da afeição que o tempo aniquilou,
Aquele pequenino anel que tu me deste,
– Ai de mim – era vidro e logo se quebrou…

Não me turbou, porém, o despeito que investe
Gritando maldições contra aquilo que amou.
De ti conservo no peito a saudade celeste…
Como também guardei o pó que me ficou
Daquele pequenino anel que tu me deste…

terça-feira, 13 de setembro de 2011

“Quer coisa melhor do que ficar quieto
ao lado de alguém,
sem que nenhum dos dois se atrapalhe com isso.”
 
Martha Medeiros
“Estou tão acostumada comigo
que nem percebo que para os outros
sou estranha, objeto de opiniões,
as contrárias e as melhores.”

Martha Medeiros

domingo, 28 de agosto de 2011

Você cumpre o ritual todinho,
faz tudo como o esperado
e é feliz,
puxa como é feliz.
E o grito lá dentro:
mas você não queria ser feliz,
queria viver!

Martha Medeiros