sexta-feira, 17 de junho de 2011

Lençóis nos varais
esvoaçantes pingando
num dia sem sol

Luna

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Estrela Cadente
Roseana Murray

Quando eu estiver
com o olhar distante,
maninha,
com um jeito esquisito
de quem não está presente,
não se assuste,
ó maninha,
fui logo ali,
no quintal do céu,
colher uma estrela cadente.
Música
Mario Quintana

O que mais me comove em música
São essas notas soltas
– pobres notas únicas –
Que do teclado arranca o afiador de pianos.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Manhã de Chuva na Infância
Cecília Meireles

Ao longo do muro, as campânulas escorrem,
gelatinosas,
ainda coradas,
ainda cheirosas,
e já mortas.

Eu sou a menina que vai para a escola
com seu casaquinho vermelho,
e os seus livros forrados de papel azul.

A chuva continua a bater nas flores,
a avivar as cores dos muros,
a gorgolejar nas calhas,
a correr para os negros bueiros.

Eu sou a menina que vai para a escola
feliz, com os cabelos molhados
e o rosto frio.

A chuva é uma alegria, com suas agulhas de vidro
voando por todos os lados.
A chuva cheira a jasmim e a flor "boa-noite!"

Eu sou a menina que de repente fica triste,
porque ao longo do muro as campânulas escorrem,
gelatinosas,

cor de coral, cor de marfim,
perfumadas ainda,
e já mortas.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Tenho silêncios,
Embrulhados em segredos.
Silêncios mudos,
Que se lêem em meus olhos.
Silêncios cúmplices,
Partilhados
Entre confidências e quimeras.
Mas os meus prediletos,
São aqueles que me provocam
Sorrisos na alma ...

Bruno de Paula

Talvez esta dor ...
Não seja mais do que um certo silêncio.
O silêncio de alguns capítulos,
Que no decorrer de nossas vidas
A saudade sublinhou ...

Bruno de Paula
Epigrama Nº 11
Cecília Meireles

A ventania misteriosa
passou na árvore cor-de-rosa,
e sacudiu-a como um véu,
um largo céu,na sua mão.

Foram-se os pássaros para o céu.
Mas as flores ficaram no chão.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Maria
Mario Quintana

Que linda estavas no dia
Da Primeira Comunhão,
Toda de branco, Maria,
Com rosas brancas na mão.

Nossa Senhora esquecia
Ao ver-te, a sua aflição,
E eu, contrito – que heresia! –
Te rezava uma oração.

Pois quando te vi, de joelhos,
Pousar os lábios vermelhos
Nos pés do Cristo, supus

Que eras Santa Terezinha,
A mais linda e mais novinha
Das esposas de Jesus.

(1923)
O Colegial
Mario Quintana
 

O vento passa lá fora
e eu, no quadro negro imóvel
- ó muro de fuzilamento!
Morro sem dizer palavra.
O professor parece triste,
talvez por outros motivos.
Manda sentar-me
e eu carrego
ó almazinha assustada,
um zero, como uma auréola...
Rezai, rezai pelas alminhas
dos meninos fuzilados!
Por que é que nos ensinam
tanta coisa?
Eu queria saber contar
só com os dedos da mão!
O resto é complicação,
um nunca mais acabar.
Eu queria mesmo era poder estudar
teu corpo todo com a mão
até sabê-lo de cor
– como um ceguinho...
E o vento passa lá fora
com a sua memória em branco.
O que ele viu, nem recorda...
e eu nada vi: só adivinho!

A moça do vestido azul
rompeu o laço,
descalçou as sandálias,
apertou o passo,
e foi atrás do arco-íris...

Luna
Invitation au Voyage
Mario Quintana

Se cada um de vós, ó vós outros da televisão
- vós que viajais inertes
como defuntos num caixão -
Se cada um de vós abrisse um livro de poemas...
Faria uma verdadeira viagem...
Num livro de poemas se descobre de tudo, de tudo mesmo!
- Inclusive o amor e outras novidades.

domingo, 5 de junho de 2011

Volúpia
Florbela Espanca

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frêmito vibrante de ansiedade,
Dou-te meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade...
A nuvem que arrastou o vento norte...
- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças...