quinta-feira, 15 de abril de 2010

Poeminha Sentimental
Mario Quintana

O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.

terça-feira, 13 de abril de 2010

O Visitante Matinal
Mario Quintana

Para que nomes? Era azul e voava...
Triste
JG de Araújo Jorge

Eu hoje acordei triste, - há certos dias
em que sinto esta mesma sensação,
e não sei explicar, qual a razão
porque as mãos com que escrevo estão tão frias...

E pergunto a mim mesmo: - tu não rias
ainda ontem tão feliz? ... Diz-me então
por que sentes pulsar teu coração
destoando das humanas alegrias?...

E, nem eu sei dizer por que estou triste ...
Quem me olha não calcula com certeza,
o imenso caos que no meu peito existe ...

A tristeza que eu sinto ninguém vê...
- E a maior das tristezas é a tristeza
que a gente sente sem saber por quê...

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Receita de Olhar
Roseana Murray

Nas primeiras horas da manhã
desamarre o olhar
deixe que se derrame
sobre todas as coisas belas
o mundo é sempre novo
e a terra dança e acorda
em acordes de sol

quinta-feira, 8 de abril de 2010

O Adolescente
Mario Quintana

Adolescente, olha! A vida é bela!
A vida é bela... e anda nua...
Vestida apenas com o teu desejo.
Chove!
Mario Quintana

Chuva
Chuva
Chuva
Vontade
Chuva
De fazer não sei bem o que seja
Vontade de escrever Sagesse, de Verlaine
E a tarde gris, tão viúva,
Vai derramando perene-
mente as suas lágrimas de chuva
Abundantes
Como lágrimas de fita cômica
Cômica
Cômica

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Poças D’Água
Mario Quintana

As poças d’água são um mundo mágico
Um céu quebrado no chão
Onde em vez das tristes estrelas
Brilham os letreiros de gás Neon.

terça-feira, 6 de abril de 2010

As Ruazinhas
Mario Quintana

Eu amo de um amor que jamais poderei expressar
Essas pequenas ruas com suas casas de portas e janelas,
Ruas tão nuas
Que os lampiões fazem às vezes de álamos,
Com toda a vibratilidade dos álamos, petrificada nos troncos imóveis de ferro,
Ruas que me parecem tão distantes
E tão perto
A um tempo
Que eu as olho numa triste saudade de quem já tivesse morrido,
Ruas como as que a gente vê em certos quadros,
Em certos filmes:
Meu Deus, aquele reflexo, à noite, nas pedras irregulares do calçamento,
Ou a ensolarada miséria daquele muro a perder o reboco...
Para que eu vos ame tanto
Assim
Minhas ruazinhas de encanto e desencanto,
É que expressais alguma coisa minha...
Só para mim!
Hai-Kai de Primavera
Mario Quintana

Tua orelha num frêmito desnuda-se:
O que seria
O que seria que te disse o vento?!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Uma Canção de Beber
William Butler Yeats

O vinho entra pela boca
E o amor, por nosso olhar;
Eis toda a verdade que saberemos
Antes de envelhecer e acabar.
Ergo o copo até minha boca,
E olho pra ti, a suspirar.


O Sótão
Luna

Eu já morei num sótão
eu, um coelho e um beija-flor.
Era incrível abrir a janela de manhã
e encontrar plumas de passarinho
mariposas... restos de ninho
asas de borboletas
ou um pombo adormecido
num vaso de violetas.

sábado, 3 de abril de 2010

O Gato
Mario Quintana

O gato chega à porta do quarto onde escrevo.
Entrepara... hesita...avança...

Fita-me.
Fitamo-nos.

Olhos nos olhos...
Quase com terror!

Como duas criaturas incomunicáveis e solitárias
Que fossem feitas cada uma por um Deus diferente.