sexta-feira, 5 de março de 2010

Sonho com Plantas e Gestos Amáveis
Cecília Meireles

Em sonho vireis delicadamente
e sem motivo algum
direis palavras amáveis
que vos surpreenderiam
se vos fossem contadas.

Em sonho mandareis colocar no meu terraço
plantas cheias de flores
que todos admirariam,
pois jamais foram vistas
da China à Patagônia
e existem apenas neste sonho.

Jamais saberei o que sonháveis
enquanto eu sonhava com as vossas gentilezas.
Jamais sabereis que tais gentilezas foram sonhadas.

Sem motivo algum,
ficam floridos noutro mundo os meus terraços.
E somente eu poderei pensar nisso.
Somente eu vi tudo isso.
E é como um achado arqueológico,
momentâneo e perene
entre o ar e o pó.

A Bicicleta
JG de Araújo Jorge

Me lembro, me lembro
foi depois do jantar, meu avô me chamou,
tinha um riso na cara, um riso de festa:

"- Guilherme, vou tapar seus olhos,
venha cá."

Os tios, os primos, os irmãos, na grande mesa redonda
ficaram rindo baixinho, estou ouvindo, estou ouvindo:

"- Abre os olhos, Guilherme!"

Estava na sala de jantar, junto da porta do corredor,
como uma santa irradiando, num altar,
como uma coroa na cabeça de um rei,
a bicicleta novinha, com lanterna, campainha, lustroso selim de couro,
tudo.

Me lembrei hoje da minha bicicleta
quando chegou a minha geladeira.

Mas faltou qualquer coisa à minha alegria,
talvez a mesa redonda, os tios, os primos rindo baixinho,

" – abre os olhos, Guilherme!"

Oh! Faltou qualquer coisa à minha alegria!

quinta-feira, 4 de março de 2010

Nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez

Paulo Leminski

Delírio
Olavo Bilac

Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
– Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!

Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
– Mais abaixo, meu bem! – num frenesi.

No seu ventre pousei a minha boca,
– Mais abaixo, meu bem! – disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci...









 
 
 
 

Canção Amiga
Carlos Drummond de Andrade

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Casulo
Cecília Meireles

À hora do teu destino
chiaram-se os fios tênues
que te envolveram,
dentro das quais adormecia
o teu sonho preparatório,
a iniciação das asas
Para a sabedoria dos espaços...
Hoje, romperam-se todos os casulos:
E foi uma festividade em torno.
Mas tu, guardando o teu,
não te pudeste mover mais:
Não tinhas mais aquele pequenino sopro
Invisível
Oculto
Que anima todas as formas

Dize-me, inseto obscuro :
com que asas voaste
de dentro de ti mesmo?
Qual foi a tua iniciação?
Qual á a tua sabedoria?
Um novo Cântico dos Cânticos
Mario Quintana

Vamos compor, ó Bem-Amada, um novo Cântico dos Cânticos:
"Tu louvarás unicamente a ti!
Eu louvarei unicamente a mim!"
(É tão sincero quanto o outro, não achas?...)
Solidão
Torquato da Luz

A maior solidão não é a que se sente
dentro de casa sem mais ninguém,
mas antes a que se tem
no meio de muita gente.
Mais do que outra qualquer,
é essa solidão que faz doer
e lentamente
nos domina, como se não
fosse nossa a multidão.

terça-feira, 2 de março de 2010

Ter saudade é viver
Não sei que vida é a minha
Que hoje só tenho saudades
De quando saudades tinha.

Passei longe pelo mundo
Sou o que o mundo seu fez,
Mas guardo na alma da alma
Minha alma de Português.

E o Português é saudades
Porque só as sente bem
Quem tem aquela palavra
Para dizer que tem.

Fernando Pessoa

segunda-feira, 1 de março de 2010

Deixei a luz a um lado e numa beira
da cama em desalinho me sentei,
sombrio, mudo, os olhos imóveis
cravados na parede.
Que tempo estive assim? Não sei; ao deixar-me
a horrível embriaguez da dor
já expirava a luz, e na varanda
ria o sol.

Não sei tão-pouco em tão terríveis horas
em que pensava ou que passou por mim;
recordo só que chorei e blasfemei
e que naquela noite envelheci.

Gustavo Adolfo Bécquer
Assim a Vida nos Afeiçoa
Manuel Bandeira

Se fosse dor tudo na vida,
Seria a morte o sumo bem.
Libertadora apetecida,
A alma dir-lhe-ia, ansiosa: - Vem!

E a vida vai tecendo laços,
Quase impossíveis de romper:
Tudo que amamos são pedaços
vivos de nosso próprio ser

A vida assim nos afeiçoa,
Prende. Antes fosse toda fel!
Que ao mostrar às vezes boa,
Ela requinta em ser cruel...
A Canção de Maria
Manuel Bandeira

Que é de ti, melancolia?...
Onde estais, cuidados meus?...
Sabei que a minha alegria
É toda vinda Deus...
Deitei-me triste e sombria,
E acordei como estou...
Tão contente! Todavia
Minha vida não mudou.
Acaso enquanto eu dormia
Esquecida de meus ais,
Um sonho bom me envolvia?
Se foi, não me lembro mais...
Mas se foi sonho, devia
Ser bom demais para mim...
Senão, não me sentiria
Tão maravilhada assim.

Ó minha linda alegria,
Trégua dos cuidados meus,
Por que não vens todo dia,
Se és toda vinda de Deus?