quarta-feira, 20 de janeiro de 2010


Medida da Significação
Cecília Meireles

Voz obstinada, por que insiste chamando
por um nome que não corresponde mais a mim?

Não é do meu propósito que fiques ao longe sozinha.
Nem tu sabes que espécie de saudade abrolha na noite
e como o silêncio tenta mover-se inutilmente,
quando diriges teus ímãs sonoros,
sondando direções!

Não é do meu propósito, ó voz obstinada,
mas da minha condição,
As aparências dispersaram-se de mim,
como pássaros:
que sol se pode fixar nesta existência,
para te definir a minha aproximação?

Minhas dimensões se aboliram nos limites visíveis:
como podes saber onde me circunscrevo,
e de que modo me pode o teu desejo atingir?

Eu mesma deixei de entender a minha substância;
tenho apenas os sentimentos dos mistérios que em mim se equilibram.

Como podes chamar por mim como às coisas concretas,
e assegurar-me que sou tua Necessidade e teu Bem?

Sabes quem sou? Eu não sei.
Outrora, onde o nada foi,
Fui vassalo e o rei.
É dupla a dor que me dói.
Duas dores eu passei.

Fui tudo que pode haver.
Ninguém me quis esmolar;
E entre o pensar e o ser
Senti a vida passar
Como um rio sem correr.


Fernando Pessoa

Paisagens, quero-as comigo.
Paisagens, quadros que são...
Ondular louro do trigo,
Faróis de sóis que sigo,
Céu mau, juncos, solidão...
Umas pela mão de Deus,
Outras pelas mãos das fadas,
Outras por acasos meus,
Outras por lembranças dadas...

Paisagens... Recordações,
Porque até o que se vê
Com primeiras impressões
Algures foi o que é,
No ciclo das sensações.

Paisagens... Enfim, o teor
Da que está aqui é a rua
Onde ao sol bom do torpor
Que na alma se me insinua
Não vejo nada melhor.


Fernando Pessoa

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010


Receita Contra Dor de Amor
Roseana Murray

Chore um mar inteiro com todos os seus barcos a vela.
Chore o céu e as suas estrelas os seus mistérios e o
seu silêncio.
Chore um equilibrista caminhando sobre a face de um poema.
Chore o sol e a lua a chuva e o vento para que uma nova
semente entre pela janela adentro.

Aonde
Florbela Espanca

Ando a chamar por ti, demente, alucinada,
Aonde estás, amor? Aonde... aonde... aonde?...
O eco ao pé de mim segreda... desgraçada...
E só a voz do eco, irônica, responde!

Estendo os braços meus! Chamo por ti ainda!
O vento, aos meus ouvidos, soluça a murmurar;
Parece a tua voz, a tua voz tão linda
Cantando como um rio banhado de luar!

Eu grito a minha dor, a minha dor intensa!
Esta saudade enorme, esta saudade imensa!
E Só a voz do eco à minha voz responde...

Em gritos, a chorar, soluço o nome teu
E grito ao mar, à terra, ao puro azul do céu:
Aonde estás, amor? Aonde... aonde... aonde?...

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010


Sonho Morto
Florbela Espanca

Nosso sonho morreu. Devagarinho,
Rezemos uma prece doce e triste
Por alma desse sonho! Vá... baixinho...
Por esse sonho, amor, que não existe!

Vamos encher-lhe o seu caixão dolente
De roxas violetas; triste cor!
Triste como ele, nascido ao sol poente,
O nosso sonho... ai!... reza baixo... amor...

Foste tu que o mataste! E foi sorrindo,
Foi sorrindo e cantando alegremente,
Que tu mataste o nosso sonho lindo!

Nosso sonho morreu... Reza mansinho...
Ai, talvez que rezando, docemente,
O nosso sonho acorde... mais baixinho...


















Depois do Sol
Cecília Meireles

Fez-se noite com tal mistério,
Tão sem rumor, tão devagar,
Que o crepúsculo é como um luar
Iluminando um cemitério...

Tudo imóvel... Serenidades...
Que tristeza, nos sonhos meus!
E quanto choro e quanto adeus
Neste mar de infelicidades!

Ó paisagens minhas de antanho...
Velhas, velhas... Nem vivem mais...
– As nuvens passam desiguais,
Com sonolência de rebanho...

Seres e coisas vão-se embora...
E, na auréola triste do luar,
Anda a lua, tão devagar,
Que parece Nossa Senhora

Pelos silêncios a sonhar...

Dai-me Algumas Palavras
Cecília Meireles

Dai-me algumas palavras,
– porém, somente algumas! –
Que às vezes apetece,
Pelos jardins da areia,
Colher flores de espuma.

Deixai, deixai, secreto,
O silêncio que dorme
Às portas da minha alma,
Guardando os labirintos
E as esfinges enormes.

(O silêncio caído
com seus firmes oceanos,
– onde não há mais nada
dos litorais do mundo
nem do périplo humano!)

O Primeiro Beijo
Roseana Murray

O primeiro beijo inaugura a casa
inaugura o corpo, talha a
primeira pedra do caminho.

Pode e deve ser doce
abelha inventando o mel
pode e deve ser louco
doce vôo louco no corpo
do outro.


A Noite se Torna mais Escura
Emily Brontë
(Tradução de Lúcio Cardoso)

Diante de mim a noite se torna mais escura,
As rajadas do vento são mais frias e selvagens.
E eu, aprisionada a este sortilégio,
Não posso mais partir.

Gigantes, as árvores se arqueiam,
Galhos nus sob a pesada neve;
Já a tempestade inclina mais baixo a sua fronte,
Por isto não posso mais partir.

Sobre mim o espaço e as nuvens;
Os desertos deságuam aos meus pés.
As solidões não me comovem mais;
A vontade se acha extinta,
Não posso mais partir.

Eu sempre te disse que era grande o oceano
Para a nossa pequena barca.
Cantavas, quando eu te dava o desengano
De partir por água tão larga.

Não, tu não devias ter ido.
Mas foi tempo perdido.

Eu sempre te disse que os olhos de um morto
Ficavam nas águas suspensos,
Procurando os vivos, os mastros, o porto,
Na oscilação de águas e ventos.

Não, tu não devias ter ido.
Mas era amor perdido.

Teço velas negras para abarca nova,
Redes de prata para as ondas.
Ensinai-me, peixes, sua funda cova
Nestas escuridões tão longas!

Não, tu não devias ter ido.
E isto é pranto perdido.



Cecília Meireles

Chovia e eu estava como numa floresta de harpas:
que musica tocarão meus inábeis dedos nas águas celestes?

Nós somos uns grandes cometas com véus de acontecimentos
arrastados atrás de nós, e cada dia dilatados.

Nós somos uns solitários faróis projetando-nos sobre a noite.


Deixai-me tocar a musica de hoje, inábil, que fica entre o que passou e
o que talvez não venha.



Cecília Meireles