quinta-feira, 14 de janeiro de 2010


O Teu Segredo
Florbela espanca

O mundo diz-te alegre porque o riso
Desabrocha em tua boca, docemente
Como uma flor de luz! Meigo sorriso
Que na tua boca poisa alegremente!

Chama-te o mundo alegre. Ai, meu amor,
Só eu inda li bem nessa alegria!...
Também parece alegre a triste cor
Do sol, à tarde, ao despedir-se o dia!...

És triste; eu sei. Toda suavidade
Tão roxa, como é roxa uma saudade
É a tua alma, amor, cheia de mágoa.

Eu sei que és triste, sei. O meu olhar
Descobriu o segredo, que a cantar
Repoisa nos teus olhos rasos d'água!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010


Estâncias
Emily Brontë
(Tradução de Lúcio Cardoso)

Já me reprovaram e volto sempre
Aos primeiros sentimentos que nasceram comigo;
Deixo de correr atrás do ouro e do conhecimento,
Para sonhar apenas com maravilhas impossíveis.

Mas hoje,
Não descerei mais ao império das sombras;
Tenho medo da sua frágil e decepcionante imensidão,
E meu sonho, povoado com legiões inumeráveis,
Torna este mundo sem forma estranhamente próximo.

Caminharei,
E ficarão para trás as antigas veredas do heroísmo,
E os caminhos já exaustos da moralidade,
E o imprevisto aglomerado de faces obscuras,
Ídolos em bruma de um passado já longínquo.

Caminharei,
Onde só agradar à minha alma caminhar,
(Não posso suportar a escolha de outro guia)
Onde os rebanhos se acinzentam no verde das campinas,
Onde o vento alucinado vergasta o flanco das montanhas.

Que pode revelar a montanha solitária?
Nada exprime sua glória e sua dor.
Minha alma dormia, quando a terra despertou,
E o círculo do Céu ao círculo do Inferno

Confundindo-se, à terra deram nascimento

Espreitava em seus olhos uma lágrima,
e em meus lábios uma frase a perdoar;
falou o orgulho, o seu pranto secou,
senti nos lábios essa frase expirar.
Eu vou por um caminho, ela por outro;
mas, ao pensar no amor que nos prendeu,
digo ainda: porque me calei aquele dia?
E ela dirá: porque não chorei eu?


Gustavo Adolfo Bécquer

Sonhando
Florbela Espanca

É noite pura e linda. Abro a minha janela
E olho suspirando o infinito céu,
Fico a sonhar de leve em muita coisa bela
Fico a pensar em ti e neste amor que é teu!

D'olhos fechados sonho. A noite é uma elegia
Cantando brandamente um sonho todo d'alma
E enquanto a lua branca o linho bom desfia
Eu sinto almas passar na noite linda e calma.

Lá vem a tua agora... Numa carreira louca
Tão perto que passou, tão perto à minha boca
Nessa carreira doida, estranha e caprichosa

Que a minh'alma cativa estremece, esvoaça
Para seguir a tua, como a folha de rosa
Segue a brisa que a beija... e a tua alma passa!...

O rio que me percorre já não transborda
Passou a época das chuvas lacrimais
As águas correm lentas, as margens abservam
Ouve-se novamente o som da floresta
Plantas crescendo lentamente
Os frutos podres caindo por terra
Não há nada de novo ou de velho
O tempo deu consciência á minha tristeza



Martha Medeiros


segunda-feira, 11 de janeiro de 2010





Quem de mim você quer?
Sou boa mãe, esposa exemplar
Profissional respeitada, prendas do lar
Gosto de plantas, sou organizada e sei bordar.

Quem de mim você quer?
Sou meio maluca, danço sozinha
Bebo profissionalmente e não dou vexame
Sou sexy, malandra, boa de cama.

Quem de mim você quer?
Leio até tarde Proust, Balzac, Flaubert
Escrevo poemas, visito escolas
Sou capaz de citar Baudelaire.

Quem de mim você quer?
Faço ginástica, musculação, caminhada
Nado mar adentro, jogo vôlei, frescobol
Novecentos abdominais por semana.

Quem de mim você quer?
Acampo em desertos, não tenho medo de avião
Gosto de Paris, Londres, cidades plurais
Bicicleta, motorhome, pára-quedas, mil milhas.

Quem de mim você quer?
A maternal que atravessa madrugadas insones?
A visceral que não deixa você dormir?
A internacional que fala várias línguas?
Escolha seu percentual de mulher.


Martha Medeiros


quinta-feira, 7 de janeiro de 2010


O que me prejudica
É essa mania de dizer a verdade
Quando deveria mentir
E fingir que estou à vontade
Quando na verdade machuca



Martha Medeiros

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010


Soneto da Hora Final
Vinicius de Moraes

Será assim, amiga: um certo dia
Estando nós a contemplar o poente
Sentiremos no rosto, de repente
O beijo leve de uma aragem fria.

Tu me olharás silenciosamente
E eu te olharei também, com nostalgia
E partiremos. Tontos de poesia
Para a porta de trevas abertas em frente.

Ao transpor as fronteiras de Segredo
Eu, calmo, te direi: -Não tenhas medo
E tu, tranqüila, me dirás: -Sê forte.

E como dois antigos namorados
Noturnamente tristes e enlaçados
Nós entraremos nos jardins da morte.


Soneto a Katherine Mansfield
Vinicius de Moraes

O teu perfume, amada — em tuas cartas
Renasce, azul... — são tuas mãos sentidas!
Relembro-as brancas, leves, fenecidas
Pendendo ao longo de corolas fartas.

Relembro-as, vou... nas terras percorridas
Torno a aspirá-lo, aqui e ali desperto
Paro; e tão perto sinto-te, tão perto
Como se numa foram duas vidas.

Pranto, tão pouca dor! tanto quisera
Tanto rever-te, tanto!... e a primavera
Vem já tão próxima! ...(Nunca te apartas

Primavera, dos sonhos e das preces!)
E no perfume preso em tuas cartas
À primavera surges e esvaneces.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010



Lembro-me ou não? Ou sonhei?
Flui como um rio o que sinto.
Sou já quem nunca serei
Na certeza em que me minto.
O tédio de horas incertas
Pesa no meu coração,
Paro ante as portas abertas
Sem escolha nem decisão.



Fernando Pessoa


Quarenta anos!
Dizem que é quando a vida inicia
A minha vida começou aos 23
Cada um sabe quando começa a sua
Anos vibrantes, conscientes, vivenciados
Anterior a isso foi ensaio: testando, câmbio!
Só quando virei adulta é que aprendi
A ser uma garota sem idade
Quarenta mesmo eu tive bem antes.


Martha Medeiros

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010


Por um olhar, um mundo;
por um sorriso, um céu;
por um beijo... não sei
que te daria eu.



Gustavo Adolfo Bécquer