sexta-feira, 21 de agosto de 2009


Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre —
Esse rio sem fim.

Fernando Pessoa

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Altivez
Helena Kolody

Quando passo por diante dos teus olhos,
Falando com a fingida animação,
Oculto na folhagem das palavras
A flor do coração.

Disfarço o meu amor, e assim torturo e piso
O próprio coração, sem remorsos e sem pena,
Para que não lacere o gume do teu riso.
Quero esmagá-lo eu mesma, orgulhosa e serena.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009


São as Mulheres como tu

Que pela consciência, encontram
respostas para todas as perguntas.

Que pela fraternidade, possuem não
só uma vida, mas todas as vidas.

Que pela dedicação, transformam o
cansaço numa esperança infinita.

Que pelo pensamento, ajudam a
realizar o azul que há no dorso das manhãs

Que pela emancipação, fazem de
nós mulheres e homens com a
estatura da vida, capazes da beleza,
da igualdade, da justiça e do amor

São as mulheres como tu
Que podem transformar o mundo

Joaquim Pessoa
A administração da minha vida amorosa
Não anda como eu queria
O primeiro pretendente não pagou o que devia
O segundo, inadimplente, não entregou a mercadoria
O terceiro, dependente, deixou minha geladeira vazia
E o último, incompetente, não estava na garantia

Abro amanhã meu coração
Para uma auditoria

Martha Medeiros
Quis o mundo que eu fosse séria
Quis a vida que eu fosse junto
Quis a lua que eu ficasse quieta
Quis o sol que eu não apagasse nunca


Martha Medeiros



Promessa
JG de Araújo Jorge

Estou sentado aqui - eu te disse que vinha
sentar-me aqui depois que tu fosses embora...
Ainda ouço a tua voz murmurante e canora
jurando entre os meus beijos que serás só minha!

Olho ao redor: a estrada é a mesma, vai sozinha
serpenteando pela mata adentro, como outrora.
Só o encanto feliz que esta paisagem tinha
aos meus olhos sem alma, aos poucos se descora!

Nada mudou talvez... Ainda é a mesma, a varanda.
Há um bambual com seus verdes penachos para o ar
e o vento ao seu redor, com as folhas, faz ciranda...

Eu te disse que vinha, e vim... Neste momento
parece que só tu trocaste de lugar:
- fugiste dos meus braços para o pensamento!

Vento
Helena Kolody

De onde vem o vento?

Chega sem aviso.
Pastoreia as nuvens,
atropela as ondas,
arrepia o rio.

Como brinca o vento!

Gira em corrupios
com as folhas mortas.
Assobia em festas.
Feliz, se balança
nos mais altos ramos
inventa a dança das sombras
no chão dos caminhos.

Que segura o vento?

Quando se enfurece,
ruge violento.

Derruba,
destelha,
mata.

Como é doce o vento
quando é brisa leve
e passa de mansinho!

Livre como veio,
vai-se embora o vento.
Metal Rosicler 23
Cecília Meireles

Chovem duas chuvas:
de água e de jasmins
por estes jardins
de flores e nuvens.

Sobem dois perfumes
por estes jardins:
de terra e jasmins,
de flores e chuvas.

E os jasmins são chuvas
e as chuvas jasmins,
por estes jardins
de perfume e nuvens.
Poema Transitório
Mario Quintana

Eu que nasci na Era da Fumaça: - trenzinho
vagaroso com vagarosas
paradas
em cada estaçãozinha pobre
para comprar
pastéis
pés-de-moleque
sonhos
– principalmente sonhos!
porque as moças da cidade vinham olhar o trem passar:
elas suspirando maravilhosas viagens
e a gente com um desejo súbito de ali ficar morando
sempre... Nisto,
o apito da locomotiva
e o trem se afastando
e o trem arquejando
é preciso partir
é preciso chegar
é preciso partir é preciso chegar... Ah, como esta vida é urgente!
...no entanto
eu gostava era mesmo de partir...
e – até hoje – quando acaso embarco
para alguma parte
acomodo-me no meu lugar
fecho os olhos e sonho:
viajar, viajar
mas para parte nenhuma...
viajar indefinidamente...
como uma nave espacial perdida entre as estrelas.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Epitáfio da Navegadora
Cecília Meireles

Se te perguntarem quem era
essa que às areias e gelos
quis ensinar a primavera;

e que perdeu seus olhos pelos
mares sem deuses desta vida,
sabendo que, de assim perdê-los,

ficaria também perdida;
e que em algas e espumas presa
deixou sua alma agradecida;

essa que sofreu de beleza
e nunca desejou mais nada;
que nunca teve uma surpresa

em sua face iluminada,
dize: "Eu não pude conhecê-la,
sua história está mal contada,

mas seu nome, de barca e estrela,
foi: "SERENA DESESPERADA".

Destino
Cecília Meireles

Pastora de nuvens, fui posta a serviço
por uma campina desamparada
que não principia e também não termina,
onde nunca é noite e nunca madrugada.

(Pastores da terra, vós tendes sossego,
que olhais para o sol e encontrais direção.
Sabeis quando é tarde, sabeis quando é cedo.
Eu, não.)

Pastora de nuvens, por muito que espere,
não há quem me explique meu vário rebanho.
Perdida atrás dele na planície aérea,
não sei se o conduzo, não sei se o acompanho.

(Pastores da terra, que saltais abismos,
nunca entendereis a minha condição.
Pensais que há firmezas, pensais que há limites.
Eu, não.)

Pastora de nuvens, cada luz colore
meu canto e meu gado de tintas diversas.
Por todos os lados o vento revolve
os velos instáveis das reses dispersas.

(Pastores da terra, de certeiros olhos,
como é tão serena a vossa ocupação!
Tendes sempre o indício da sombra que foge...
Eu, não.)

Pastora de nuvens, não paro nem durmo
neste móvel prado, sem noite e sem dia.
Estrelas e luas que jorram, deslumbram
O gado inconstante que se me extravia.

(Pastores da terra, debaixo das folhas
que entornam frescura num plácido chão,
sabeis onde pousam ternuras e sonos.
Eu, não.)

Pastora de nuvens, esqueceu-me o rosto
do dono das reses, do dono do prado.
E às vezes parece que dizem meu nome,
que me andam seguindo, não sei por que lado.

(Pastores da terra, que vedes pessoas
sem serem apenas de imaginação,
podeis encontrar-vos, falar tanta coisa!
Eu, não)

Pastora de nuvens, com a face deserta,
sigo atrás de formas com feitios falsos,
queimando vigílias na planície eterna
que gira debaixo dos meus pés descalços.

(Pastores da terra, tereis um salário,
e andará por bailes vosso coração.
Dormireis um dia como pedras suaves.
Eu, não.)

Diálogo
Cecília Meireles

Minhas palavras são a metade de um diálogo obscuro
continuando através de séculos impossíveis.

Agora compreendo o sentido e a ressonância
que também trazes de tão longe em tua voz.

Nossas perguntas e resposta se reconhecem
como os olhos dentro dos espelhos. Olhos que choraram.

Conversamos dos dois extremos da noite,
como de praias opostas. Mas com uma voz que não se importa...

E um mar de estrelas se balança entre o meu pensamento e o teu.
Mas um mar sem viagens.