terça-feira, 18 de agosto de 2009


Abismal
Helena Kolody

Meus olhos estão olhando
De muito longe, de muito longe,
Das infinitas distâncias
Dos abismos inferiores.
Meus olhos estão a olhar do extremo longínquo
Para você que está distante de mim.
Se eu estendesse a mão, tocaria sua face.
Mas os cinco dedos pendem como um lírio murcho
Ao longo do vestido.

Aqui tudo é leve, silencioso, indefinido,imóvel.
Não tenho mais limites.
Tornei-me fluida como o ar.
Seus olhos tem apelos magnéticos,
Mas estou abismada
Em profundezas infinitas.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009


Alma Perdida
Florbela Espanca

Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na Dor, suavemente...
Talvez sejas a alma, a alma doente
Dalguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste... e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh'alma
Que chorasse perdida em tua voz!...


Amar
Florbela Espanca

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui...além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi para cantar!

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder...pra me encontrar...

As Minhas Ilusões
Florbela Espanca

Hora sagrada dum entardecer
De Outono, à beira-mar, cor de safira,
Soa no ar uma invisível lira...
O sol é um doente a enlanguescer...

A vaga estende os braços a suster,
Numa dor de revolta cheia de ira,
A doirada cabeça que delira
Num último suspiro, a estremecer!

O sol morreu... e veste luto o mar...
E eu vejo a urna de oiro, a balouçar,
À flor das ondas, num lençol de espuma.

As minhas Ilusões, doce tesoiro,
Também as vi levar em urna de oiro,
No mar da Vida, assim... uma por uma...

A Canção da Menina e Moça
Mario Quintana

Uma paisagem com um só coqueiro.
Que triste!
E o companheiro?

Cabrinha que sobe o monte pedrento.
Só, contra as nuvens.
Será teu esposo o vento?

O meu esposo há de cheirar a tronco,
Como eu cheiro a flor.

Um coração não cabe num só peito:
Amor... Amor...

Uma paisagem com um só coqueiro...
Uma igrejinha com uma torre só...
Sem companheira... Sem companheiro...
Ó dor!

O meu esposo há de cheirar a tronco.
Como eu cheiro... como eu cheiro
A amor
Poema Ouvindo o Noticioso
Mario Quintana

Os acontecimentos tombam como moscas sobre a minha mesa
z...z...z...z...z...z...z...z...
De junto a mim,
– len-ta-men-te –
a Presença Invisível afasta-se
deixando
um rastro
de silêncio...
A página aguarda
O poeta aguarda, mudo...
Em vão!
(O limite do poema é uma página em branco).
Esses Eternos Deuses...
(Para Liane dos Santos)
Mario Quintana

Os deuses não sabem apanhar o momento esvoaçante
como quem aprisiona um besouro na mão,
não sabem o contacto delicioso, inquietante
do que – só uma vez! – os dedos reterão...
Em sua pobre eternidade, os deuses
Descobrem o preço único do instante...
e esse despertar, ainda palpitante,
de quem cortasse em meio um sonho vão.
No entanto a vida não é sonho... Não:
a vida aí está, eterna: nossa mão
é que dispõe apenas de um minuto.
E todos os encontros são adeuses...
(Como riem, meu pobre amor... Como riem, de nós
esses eternos deuses!)

Cinzento
Florbela Espanca

Poeiras de crepúsculos cinzentos.
Lindas rendas velhinhas, em pedaços,
Prendem-se aos meus cabelos, aos meus braços,
Como brancos fantasmas, sonolentos...

Monges soturnos deslizando lentos,
Devagarinho, em misteriosos passos...
Perde-se a luz em lânguidos cansaços...
Ergue-se a minha cruz dos desalentos!

Poeiras de crepúsculos tristonhos,
Lembram-me o fumo leve dos meus sonhos,
A névoa das saudades que deixaste!

Hora em que teu olhar me deslumbrou...
Hora em que a tua boca me beijou...
Hora em que fumo e névoa te tornaste...

sábado, 15 de agosto de 2009

Amo a vida.
Fascina-me o mistério de existir.

Quero vivier a magia
de cada instante
embriagar-me de alegria.

Que importa a nuvem no horizonte,

chuva de amanhã?
Hoje o sol inunda o meu dia.

Helena Kolody

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Cântico
Helena Kolody

Ó tu, por quem eu vivo e sonho, e sofro tanto,
Dono do meu sorriso e causa do meu pranto!

Se adivinhasses que ao passar absorta,
Vou sonhando com teu olhar profundo...
E nada mais existe neste mundo,
E tudo mais na vida pouco importa.

A luz do teu olhar é a estrela solitária
Da noite deste amor, que é feito de silêncio.

Em meu enternecido coração,
O teu nome ressoa em notas graves,
Como no amplo recinto de altas naves
Um cântico de imensa devoção.

Eterno sonhador, teu vulto pensativo
Vive na timidez do meu amor esquivo

Caravelas
Florbela Espanca

Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar! Já me perdi!
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.

Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!

Se eu sempre fui assim este Mar Morto:
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram!

Caravelas doiradas a bailar...
Ai quem me dera as que eu deitei ao Mar!
As que eu lancei à vida, e não voltaram!...

Os Versos Que Te Fiz
Florbela Espanca

Deixa-me dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como seda pálida a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não os digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E neste beijo, amor, que não te dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!