quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Epigrama 8
Cecília Meireles

Encostei-me a ti, sabendo bem que eras somente onda.
Sabendo bem que eras nuvem, depus a minha vida em ti.

Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil,
Fiquei sem poder chorar, quando caí.


Canção dos Três Barcos
Cecília Meireles

Meu avô me deu três barcos:
um de rosas e cravos,
um de céus estrelados,
um de náufragos, náufragos...
ai, de náufragos!

Embarcara no primeiro,
dera em altos rochedos,
dera em mares de gelo,
e partira-se ao meio...
ai, no meio!

No segundo me embarcara,
e nem sombra de praia,
e nem corpo e nem alma,
e nem vida e nem nada...
ai, nem nada!

Embarcara no terceiro,
e que vela e que remo!
e que estrela e que vento!
e que porto sereno!
ai, sereno!

Meu avô me deu três barcos:
um de sonhos quebrados,
um de sonhos amargos,
e o de náufragos, náufragos!
ai, de náufragos!

Canção do Amor-Perfeito
Cecília Meireles

O tempo seca a beleza,
seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve,
desunindo para sempre
como as areias nas águas.

O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.

O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.

Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas.
Esperarei que te seque,
não na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.
Canção a Caminho do Céu
Cecília Meireles

Foram montanhas? Foram mares?
Foram números...? – não sei.
Por muitas coisas singulares,
Não te encontrei.

E te esperava, e te chamava.
E entre os caminhos me perdi.
Foi nuvem negra? Maré brava?
E era por ti!

As mãos que trago, as mãos são estas.
Elas sozinhas te dirão
Se vem de morte ou de festas
Meu coração.

Tal como sou, não te convido
A ires para onde eu for.

Tudo que tenho é haver sofrido
Pelo meu sonho, alto e perdido,
- e o encantamento arrependido
do meu amor.



quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Renúncia
Helena Kolody

Porque fujo de ti, dizes que sou covarde.
Não percebes, então, a excessiva bravura
Que é preciso empregar por fugir-se à ventura,
Quando em sede de afeto o coração nos arde?

Heróica e silenciosa, ignorada e sem glória,
A renúncia do amor, é a suprema vitória.

Covardia
Helena Kolody

Meus olhos perscrutaram a extensão desconhecida
Da senda acidentada e inquietadora:
Era tão estranha, tão sinuosa
A estrada da vida!

Meus pés sentiram um medo misterioso
De palmilhar o mais antigo dos caminhos:
Medo do pó, medo das pedras, medo dos espinhos,
Receio daquelas sombras estranhas
Que subiam dos abismos e desciam das montanhas.

Covarde, circundei minh’alma de penumbra.

Encontrei mãos que se estenderam, tão amigas,
Oferecendo amparo certo na jornada.
Eu, porém, não confiei no auxilio de outra mão.

E fiquei isolada, fiquei esquecida
À margem do agitado caminho da vida.

Velhinha
Florbela Espanca

Se os que me viram já cheia de graça
Olharem bem de frente em mim,
Talvez, cheios de dor, digam assim:
“Já ela é velha! Como o tempo passa! ...”

Não sei rir e cantar por mais que faça!
Ó minhas mãos talhadas em marfim,
Deixem esse fio de oiro que esvoaça!
Deixem correr a vida até o fim!

Tenho vinte e três anos! Sou velhinha!
Tenho cabelos brancos e sou crente ...
Já murmuro orações ... falo sozinha ...

E o bando cor-de-rosa dos carinhos
Que tu me fazes, olho-os indulgente,
Como se fosse um bando de netinhos ...

Princesa Desalento
Florbela Espanca

Minh'alma é a Princesa Desalento,
Como um Poeta lhe chamou, um dia.
É magoada, e pálida, e sombria,
Como soluços trágicos de vento!

É frágil como o sonho dum momento;
Soturna como preces de agonia,
Vive do riso duma boca fria:
Minh'alma é a Princesa Desalento...

Altas horas da noite ela vagueia...
E ao luar suavíssimo, que anseia,
Põe-se a falar de tanta coisa morta!

O luar ouve a minh'alma, ajoelhado,
E vai traçar, fantástico e gelado,
A sombra duma cruz à tua porta...

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Rio de Planície
Helena Kolody

Minha vida é um largo rio de águas mansas
- Vida sem ilusões... nem esperanças -
De curso sempre igual.
Rio sem a imponência das cachoeiras
Sem o encanto verde das ilhas
Nem o ímpeto rumoroso das corredeiras.
- Sem grandes alegrias nem profundas mágoas -
Rio de planície ignorada; rio cujas águas
Passarão sem deixar memória
Da sua silenciosa trajetória.


Identificação
Helena Kolody

Eu me diluí na alma imprecisa das coisas.
Rolei com a Terra pela órbita do infinito,
Jorrei das nuvens com a torrente das chuvas
E percorri o espaço no sopro do vento;
Marulhei na corrente inquietadora dos rios,
Penetrei a nudez milenária das montanhas;
Desci ao vácuo silencioso dos abismos;
Circulei a seiva das plantas,
Ardi no olhar das feras,
Palpitei nas asas das pombas;
Fui sublime n'alma do homem bom
E desprezível no coração do mesquinho;
Inebriei-me da alegria do venturoso;
E deslizei dolorosamente na lágrima do infeliz.

Nada encontrei mais doloroso,
Mais eloquente,
Mais grandioso
Do que a tragédia cotidiana
Escrita em cada vida humana.

Quando Chegares
JG de Araújo Jorge

Não sei se voltarás,
sei eu te espero.

Chegues quando chegares,
ainda estarei de pé, mesmo sem dia,
mesmo que seja noite, ainda estarei de pé.

A gente sempre fica acordado
nessa agonia,
à espera e um amor que acabou sendo fé...

Chegues quando chegares,
se houver tempo, colheremos ainda frutos, como ontem,
a sós;
se for tarde demais, nos deitaremos à sombra
e perguntaremos por nós...

segunda-feira, 10 de agosto de 2009


Anunciação
Cecília Meireles

Toca essa música de seda, frouxa e trêmula,
que apenas embala a noite e balança as estrelas noutro mar.

Do fundo da escuridão nascem vagos navios de ouro,
com as mãos de esquecidos corpos quase desmanchados no vento.

E o vento bate nas cordas, e estremecem as velas opacas,
e a água derrete um brilho fino, que em si mesmo logo se perde.

Toca essa música de seda, entre areias e nuvens e espumas.

Os remos pararão no meio da onda, entre os peixes suspensos:
e as cordas partidas andarão pelos ares dançando à-toa.

Cessará esta música de sombra, que apenas indica valores de ar.
Não haverá mais nossa vida, talvez não haja nem o pó que fomos.

E a memória de tudo desmanchará suas dunas desertas,
e em navios novos homens eternos navegarão.